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Por Nilson Pereira.  Primeiramente quero deixar claro que este texto é destinado a cristãos bíblicos e maduros que entend...

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Nilson de O. P. Pereira

Nilson de O. P. Pereira
Um Cristão vivendo para ser Bíblico, Missional, Pastor de Família e Professor Reformado nas Relações.

Verdadeiro Cristianismo:

Verdadeiro Cristianismo:

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Pós-Segunda Guerra Mundial. Uma visão historiográfica de ''O Leitor''.




Por Nilson Pereira. 

1. Introdução – Dados do filme:

          O filme O Leitor é uma adaptação cinematográfica de nacionalidade mista, entre Estados Unidos e Alemanha, baseada no livro de mesmo nome, escrito pelo jurista e escritor alemão Bernhard Schlink, lançado no ano de 1995 pela primeira vez, hoje com 39 traduções diferentes ao redor do mundo.
A adaptação cinematográfica foi feita pelo roteirista David Hare e dirigida pelo diretor Stephen Daldry. Foi lançada no ano de 2008.
O elenco é estrelado pela atriz inglesa Kate Winslet, ganhadora do Oscar de melhor atriz em 2009, por conta de sua atuação em O Leitor, pelo ator alemão David Kross  e por Ralph Fiennes, ator de nacionalidade inglesa, que interpretam o mesmo personagem, Michael Berg, em idades diferentes.
O filme teve indicações ou venceu os principais prêmios da indústria cinematográfica mundial.
Cinco indicações ao Oscar de 2009 (melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e o de melhor atriz, no qual Kate Winslet venceu).
Quatro indicações ao Globo de Ouro de 2009 (melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original e melhor atriz coadjuvante, prêmio no qual Kate Winslet venceu também).
Três no Festival de Cannes em 2009 (Palma de Ouro, Grand Prix e melhor interpretação feminina, mais uma vez vencida pela atriz Kate Winslet). Três indicações ao prêmio British Academy of Film and Television Awards 2009 (melhor filme, melhor diretor e melhor atriz, no qual Kate Winslet venceu). Uma indicação ao SAG Awards assim como ao European Films Awards ambos de 2009, ambos de melhor atriz, vencido pela Kate Winslet nos dois casos.
O filme é considerado um grande sucesso de público e crítica, arrecadando a bilheteria no valor de $ 33.484.347,00 nos três primeiros meses de exibição somente nos Estados Unidos.


 2. Enredo do filme e do livro:

I-                   O filme:

O filme se passa em Berlim, em 1995, quando o personagem Michael Berg (interpretado por Ralph Fiennes) remete sua lembrança à Alemanha dos anos de 1950, pós Segunda Guerra Mundial, especificamente em 1958.  
Ao ver pela janela um U-Bahn amarelo (transporte coletivo usado na Alemanha no decorrer do século XX, que lembra um bonde), Michael Berg lembra-se de quando tinha a idade de 15 anos (aqui interpretado por David Kross), na cidade Neustadt, onde sua família morava até então, passa mal durante o trajeto feito pelo U-Bahn.  Michal para em frente a um prédio, onde vomita, e é socorrido por Hanna Schmitz (interpretada por Kate Winslet), moradora do prédio e trocadora de U-Bahn.
Ao voltar para casa, o médico diagnostica Escarlatina, receitando que Michael fique de cama por três meses. O personagem passa a ler bastante neste tempo de recuperação. Ao ficar são, comenta com sua mãe que uma mulher o ajudou quando ele passou mal e ela o aconselha a ir visitar sua benfeitora.
Michael vai visitar Hanna, os dois se envolvem e acabam tendo um caso. No decorrer do tempo, Hanna indaga o jovem sobre o que ele aprende na escola, e passa a pedir para que ele leia os livros que usa na escola. Títulos como A Odisséia de Homero, A dama do cachorrinho de Anton Checkhov, e Huckleberry de Mark Twain. Hanna e Michael passam a se encontrar sempre com uma sessão de leitura e uma relação sexual.
Entre alguns conflitos por conta de posturas rígidas de Hanna, somadas a imaturidade de Michael, os dois mantém a relação, até que Hanna é promovida de trocadora para trabalhar no escritório de sua empresa, mudando sem avisar Michael, desaparecendo. O jovem estudante então sofre bastante com isto.
O filme passa a retratar o ano de 1966, quando o jovem Michael cursa direito na Universidade de Heiderlberg, e participa de um seminário conduzido pelo professor Rohl (Interpretado por Bruno Ganz), judeu que sobrevivente da Segunda Guerra.
Em dos julgamentos que acontecem na Alemanha neste período, Michael se depara com o julgamento de algumas mulheres acusadas de serem coniventes com a morte de trezentas judias queimadas vivas em uma igreja de Auschwitz (um acontecimento fictício que no filme é ilustrado  e que parte de um evento histórico real, a chamada ‘’Marcha da Morte’’, onde as tropas aliadas invadem a região da Normandia, assim como as tropas soviéticas ocupam cada vez mais territórios antes da Alemanha nazista, e os alemães passam a ter que recuar, levando consigo os prisioneiros de guerras judeus, antes em campos de concentração localizados nos territórios que os aliados tomam) no ano de 1944.
Para a surpresa de Michael, uma das acusadas era Hanna. Acontece uma das cenas mais impactantes do filme, quando Michael visita um antigo campo de concentração por estar atordoado com a descoberta que Hanna era uma ex guarda da SS, polícia da Alemanha nazista. Há uma discussão no seminário, um aluno se posiciona a favor de uma punição rigorosa as acusadas e isto mexe com Michael.
O depoimento de Ilana Mather (interpretada por Alexandra Maria Lara), autora de um livro que narra como ela e sua mãe sobreviveram ao campo de concentração de Auschwitz, é decisivo para o desenrolar do processo.
Hanna admite todas as acusações que lhe são impostas, menos a suposta autoria de um relatório redigido após as mortes na igreja, porém, as demais rés a acusam de ter escrito e de ter sido a mente arquiteta de todo o fato. Hanna acaba admitindo a acusação por vergonha, uma vez que o juiz pede a ela que dê uma amostra de sua caligrafia, e ela prefere se acusar do que mostrar que era analfabeta. Michael enfim entende que Hanna sempre fez de tudo para guardar este segredo, seu analfabetismo, por isso pedia a ele para ler para ela.
Michael tenta contar a seu professor que sabia de uma informação que poderia mudar todo o curso do processo, porém, não conta a ele o que é, uma vez que a própria Hanna prefere ocultar o fato de ser analfabeta. O juiz dá a sentença, diferenciada para as outras rés, e prisão perpétua a Hanna, acusada de ser mentora de tudo.
Michael se casa, tem uma filha, se divorcia. Visita sua família em Neustadt, revê seus livros, os que lia para Hanna, tem a ideia de gravá-los em fitas cassete e as envia junto a um toca fitas a Hanna na prisão. Ela começa a aprendera ler e a escrever, associando os livros às fitas, passando a enviar cartas para Michael, que nunca responde as cartas, mas continua a enviar as fitas.
Em 1988, Michael é surpreendido com um telefonema de uma funcionária da prisão, pedindo que ele ajude Hanna na sua reintegração junto a sociedade, pois a mesma havia estado mais de 20 anos presa. Michael finalmente a visita, com várias opções para que Hanna seja ajudada. Ela se suicida na noite anterior a sua libertação. Deixa um pote com uma quantia em dinheiro exposta em uma carta que a mesma deixou.
Hanna queria que Michael procurasse Ilana e a desse o pote com o dinheiro, ele vai aos Estados Unidos e se encontra com Ilana, que numa conversa, fica com o pote mas pede a Michael que invista o dinheiro onde este desejar, ele então tem a ideia de investir estas economias em uma instituição de ajuda ao combate do analfabetismo.
O filme termina com uma bela cena, onde Michael leva sua filha para visitar o túmulo de Hanna, e conta toda a sua história vivida com ela, explicando o porque de várias atitudes estranhas dele ao redor de sua vida.

II-                O livro:
Como toda obra adaptada para o cinema, O Leitor na sua versão de livro é muito mais abrangente se comparada ao filme. Com muito mais riquezas de detalhes e até mesmo com uma leitura diferente dos acontecimentos.
O livro gira em torno dos debates de consciência de Michael, sobre todos os fatos acontecidos em sua vida e que remetem a Hanna, o filme não, se preocupa mais em mostra os fatos, por muitas vezes, os pensamentos de Michael não subentendidos apenas, no livro, são o cerne das questões quase que o tempo todo, a base da narração, o que torna o livro muito mais rico.
No livro há uma ênfase muito maior de personagens, como na mãe de Michael, que era professora de Filosofia, suas descrições em relação aos irmãos, e sobre toda sua família em si. Há diálogos riquíssimos entre Michael e seu pai por exemplo, não relatados no filme, o pai de Michael no cinema praticamente não tem destaque, assim como sua família no geral, algo que o livro valoriza muito.

O livro se inicia com Michael aos 15 anos de idade, não com uma lembrança de sua fase adulta, como no filme, e sim com uma narrativa dele enquanto adulto. Na versão literária, Michael teve hepatite, e não escarlatina, como retrata o filme. A cidade onde Michael morava no livro chamava-se Blumentrasse, Hanna morava em Bahnhofstrasse, e não em Neustadt, coforme o filme relata.
O livro conta que um homem conduz Michael ao apartamento de Hanna, fato que não ocorre no filme, além de detalhar precisamente a timidez de Michael, suas refutações e desistência de ir ao encontro de Hanna, acontecimentos ocultados no filme. No filme, existe a personagem Sophie, porém, não retrata um caso de Michael com ela, fato que acontece no livro.
O crime na qual Hanna era acusada no livro é diferente da adaptação cinematográfica, no livro o crime foi o de um bombardeio a um campo de concentração, e não um incêndio numa igreja, conforme relata o filme. Este campo ficaria perto de Cracóvia, era ligado a Auschwitz, porém, não era lá, conforme ocorre no filme.
O livro dá muito mais ênfase a obra literária escrita por uma sobrevivente, dá também riqueza de detalhes do julgamento, diálogos entre Hanna e seu advogado, troca de olhares entre ela e Michael durante o julgamento, acontecimentos não relatados no filme.
O livro se preocupa em descrever partes do casamento de Michael com a personagem Gertrud além de acoplar a realidade dos personagens ao contexto histórico com maior maestria, haja vista que Michael é especialista em estudar o Direito no Terceiro Reich, algo nem se quer dito no filme.  Michael visita o túmulo de Hanna sozinho, embaraçado com suas lembranças e interpretações do passado, no filme ele vai com sua filha Julia.


3. Contextualização histórica:

O filme O Leitor foi produzido no final da primeira década dos anos 2000. Neste período histórico, explodia a crise econômica que assola a Europa e os Estados Unidos até os dias de hoje, particularmente em países europeus, o desemprego aumentou bruscamente, e a crise econômica começara a ecoar nos cenários social e político no continente, ao ponto do fantasma da ideologia nazista, através de partidos políticos de orientação ultra-direitistas, ganharem notoriedade no cenário político em alguns países.
O cenário descrito no parágrafo anterior lembra bastante o cenário histórico do pré-Segunda Guerra Mundial, assolado pela crise econômica de 1929, onde a ideologia nazista e fascista, antiliberais, e antidemocráticas, ganharam notoriedade na Alemanha e em outras regiões europeias, conforme descreve o historiador José Robson de Andrade Arruda, em seu artigo ‘’A crise do capitalismo liberal’’. (ARRUDA, 2000, p. 22)
O belíssimo filme O Leitor, a meu ver, foi redigido, produzido e lançado exatamente no fim da última década, para levantar uma reflexão sobre as condições que uma ideologia como nazismo pode acarretar em uma sociedade, afinal, um dos elementos que mais me chamou a atenção, tanto no filme, quanto no livro, é o impacto que causa ao cidadão alemão comum, retratado pelo personagem Michael Berg, e por outros que compõe o enredo das duas versões, quando se toca na questão da Segunda Guerra.
Nem o filme nem o livro são narrados dentro do contexto da Segunda Guerra em si, os acontecimentos que acusam a personagem Hanna como ex guarda da SS, são remetidos no enredo, não acontecidos no real time da história, porém, a todo o momento a Alemanha nazista está em volta do cotidiano dos personagens, ainda que esta não existisse mais.
A lição por trás do enredo está bem de acordo com o que o filósofo alemão Theodor Adorno, em seu artigo ‘’ Educação após Auschwitz’’ mostra:

‘’A exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje não mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda a monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a estas exigências e as questões que ela levanta provam que monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma de persistência da possibilidade  de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas.’’  (ADORNO, sp)


Na última Eurocopa, este receio impactante entre os alemães e o nazismo, ficou ainda mais evidente. A competição foi disputada conjuntamente entre Ucrânia e a Polônia, país este que abrigou diversos campos de concentração nazistas, antes do início dos jogos, a delegação alemã visitou um destes campos, um momento emocionante sem dúvidas, para eles e para todos que avistaram este acontecimento.
Não importa o envolvimento, se houve ou não, nem a que geração alemã pertence o indivíduo, haverá na maior parte dos casos um relacionamento particular entre os alemães e a História da Segunda Guerra. O livro e o filme retratam isto com maestria, improvável não perceber a emoção  do momento no qual o personagem Michael visita um campo de concentração, ou simplesmente quando o julgamento de Hanna é propagado de alguma forte no enredo da história, seja no filme, seja no livro.


4. Referências Bibliográficas


SCHLINK, Bernhard. O leitor. Rio de Janeiro: Record, 2003.

ARRUDA, José Jobson de Andrade. A Crise do capitalismo liberal. In FILHO, Daniel Aarão Reis. O século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.


http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Leitor. Wikipedia (2001). Acessado no dia 28/05/2013, às 17 horas.

ADORNO, Theodor. http://www.educacaoonline.pro.br. Educação on-line (2003).  Acessado no dia 28/05/2013, às 17 horas.




Sola Scriptura!

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